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Internacional Ânimos acirrados

Como a morte de alto comandante do Irã elevou as tensões e interrompeu o forte ânimo das bolsas pelo mundo

Ataque promovido pelos EUA que culminou na morte de Qassem Soleimani foi considerado bastante arriscado

03/01/2020 10h05 Atualizada há 9 meses
Por: Sandro Araújo Fonte: Ansa Brasil
Como a morte de alto comandante do Irã elevou as tensões e interrompeu o forte ânimo das bolsas pelo mundo

Um ataque aéreo ordenado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, matou na noite de ontem (2) o chefe da Guarda Revolucionária do Irã, Qassem Soleimani, considerado um dos homens mais poderosos de Teerã. Isso desencadeou uma escalada de tensões que leva a uma forte alta do petróleo e queda das bolsas internacionais neste início de ano, que havia começado com tom positivo, com as principais praças internacionais registrando recordes de pontuação.

O ataque ocorreu em Bagdá, no Iraque, onde o chefe militar estava participando de reuniões com milícias locais, já que o Irã tem aumentado cada vez mais sua presença no território vizinho.

Ao menos quatro foguetes atingiram o aeroporto internacional da capital iraquiana. Segundo o Departamento de Defesa dos EUA, o general Soleimani estaria desenvolvendo ativamente planos para atacar diplomatas e militares americanos no Iraque e em toda a região.

Qassem Soleimani, de 62 anos, era major-general da Força Al Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, e apontado como o principal estrategista militar e geopolítico do país. Ele era muito próximo do aiatolá Ali Khamenei e sobreviveu a diversas tentativas de assassinato nas últimas décadas.

Considerado um herói no Irã, Soleimani tem sido chamado de mártir. De acordo com a imprensa americana, ele era tido como o número dois do país, atrás apenas de Khamenei, e era cotado para ser o sucessor do aiatolá. Teerã decretou luto de três dias. Além dele, morreram no ataque outras cinco pessoas e Abu Mahdi al-Muhandis, chefe das Forças de Mobilização Popular do Iraque, milícia apoiada pelo Irã.

O Pentágono confirmou o ataque e disse que a ordem partiu de Trump. Em comunicado, o Pentágono também acusou Soleimani pela morte de americanos no Oriente Médio e justificou que os bombardeios tinham como objetivo deter os planos de ataques futuros do Iraque.

No campo doméstico, a decisão de Trump tem sido considerada arriscada. Não se sabe se o presidente chegou a avisar o Congresso de que poderia autorizar o ataque. Caso nenhum parlamentar tenha sido alertado com antecedência, o republicano corre o risco de perder apoio no Senado, que votará em breve seu processo de impeachment, o que eleva ainda mais os temores dos investidores.

O ataque também gerou uma grande repercussão internacional e provocou mais tensão entre os Estados Unidos e o Irã. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, prometeu aumentar a resistência contra os EUA e Israel, um grande aliado americano e desavença de Teerã.

“Todos os inimigos devem saber que a jihad de resistência continuará com uma motivação dobrada, e uma vitória definitiva aguarda os combatentes na guerra santa”, afirmou Khamenei.

”Uma severa retaliação aguarda assassinos que têm o sangue de Soleimani e de outros mártires nas mãos perversas do incidente da noite passada”, disse ainda.

O líder supremo iraniano também nomeou imediatamente Esmail Qaani como substituto de Soleimani no comando da Força Al Quds.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, afirmou em uma rede social que a morte de Soleimani é um “ato de terrorismo” dos EUA “extremamente perigoso e uma escalada tola”.

”Nenhum lugar será seguro para os americanos a partir de agora, após o assassinato de Soleimani”, afirmou Heshmatollah Falahatpisheh, membro da comissão de segurança nacional do parlamento iraniano, segundo o ICANA, o serviço oficial de notícias do órgão.

A embaixada dos Estados Unidos em Bagdá orientou que os cidadãos americanos deixem o Iraque o quanto antes. Na terça-feira (31), a sede foi alvo de um ataque de iraquianos xiitas.

Petróleo em forte alta

Uma hora após a confirmação da morte de Soleimani, os preços do petróleo no mercado internacional já sofriam com altas de cerca de 4%. O barril brent chegou a ser vendido a US$ 68,90.

As companhias petrolíferas estrangeiras que atuam na região de Bassora, no Iraque, perto da fronteira com o Irã, ordenaram a evacuação de dezenas de funcionários.

A notícia deve ter impacto sobre a Petrobras (PETR3;PETR4). Hoje, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que tentou falar com o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, sobre uma possível alta de combustíveis no país devido ao ataque, mas ainda não conseguiu.

Bolsonaro admitiu que a ação dos EUA vai impactar o preço do petróleo no mercado internacional, o que pode repercutir no Brasil. “Que vai afetar, vai”, disse ele a jornalistas. O presidente disse ainda que não pode intervir no preço do combustível e destacou que, quando foi feito no passado uma política de tabelamento de preços, não deu certo.

Já as bolsas europeias têm forte queda, com destaque para o DAX e o FTSE MIB, com baixa superior a 1%, enquanto os contratos futuros das bolsas americanas caem mais de 1% (baixa de 1,33% para o S&P500, 1,48% para o Nasdaq e 1,20% para o Dow Jones).

De acordo com analistas ouvidos pela CNBC, o preço do barril de petróleo pode ter uma escalada para US$ 80 se o conflito entre Estados Unidos e o Irã se intensificar.

“Uma coisa é certa: o Irã responderá”, disseram analistas do Eurasia Group, em Nova York. “Os preços do barril de petróleo muito provavelmente vão se aproximar dos US$ 70, mas podem ter uma escalada para US$ 80 se o conflito se estender aos campos petrolíferos do Sul do Iraque ou se o Irã intensificar o assédio aos petroleiros no Golfo Pérsico”, comentou o Eurasia.

“Se não houver uma escalada no conflito, então este aumento provavelmente será o bastante por agora”, disse James Athey, gestor sênior de investimentos na Aberdeen Standard Investments à CNBC News na manhã de hoje. “Mas parece ter ocorrido uma escalada grave, por isto eu acredito que o mercado ficará sob tensão a partir de agora”, comentou.

Com relação ao Brasil, após o Ibovespa atingir nova máxima histórica acima de 118 mil pontos, o índice sofrerá impacto pela percepção de risco geopolítico elevada.

“Mantemos nossa visão estrutural positiva para a bolsa brasileira, tendo em vista o cenário de (i) crescimento acelerando; (ii) reformas em andamento e (iii) taxas de juros mais baixas, mas ressaltamos que a incerteza em relação a extensão da disputa Irã-EUA pode continuar gerando volatilidade para os mercados no curto prazo”, destaca a XP Investimentos.

Repercussão 

Diversos países  demonstraram preocupação com o ataque. A China fez um apelo por calma, “especialmente aos Estados Unidos”. “Fazemos um apelo às partes envolvidas, especialmente aos Estados Unidos, para que se mantenha a calma e se evite uma escalada de tensão”, pediu um porta-voz de Pequim.

A Rússia, por sua vez, disse que a morte de Soleimani provocará mais tensões em todo o Oriente Médio. “Soleimani serviu com devoção a causa da proteção dos interesses nacionais iranianos.

Expressamos nossas sinceras condolências ao povo iraquiano”, escreveu a agência Ria Novosti, citando o Ministério das Relações Exteriores.

Para a França, o ataque americano em Bagdá deixou o mundo “mais perigoso”. “O que queremos é, sobretudo, estabilidade e conter uma escalada”, afirmou a ministra francesa para a Europa, Amelie de Montchalin. Em uma coletiva de imprensa, a porta-voz do governo alemão, Ulrike Demmer, disse que Berlim está “preocupada” com “o perigoso momento de escalada” de tensão e pede “moderação” na região.

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