PAGSEGURO anúncio home
HJ STOREBR - super banner topo
"DIA DO FOGO"

Grupo no WhatsApp contratou motoqueiros e motosserras para desmatar e incendiar a floresta

Dos 246 participantes ativos do grupo “Jornal A Voz da Verdade”, 70 aprovaram os planos do

27/08/2019 11h09Atualizado há 3 meses
Por: Sandro Araújo
Fonte: GLOBO RURAL
Fogo começa às margens da rodovia e adentra a mata fechada da Amazônia. (Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)
Fogo começa às margens da rodovia e adentra a mata fechada da Amazônia. (Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)

O “Dia do Fogo”, que provocou o recorde de queimadas em Novo Progresso e Altamira, no Pará, nasceu dentro do grupo “Jornal A Voz da Verdade”, no aplicativo Whatsapp, segundo apurou a Revista Globo Rural.

O grupo, formado para debater interesses do setor, tem uma arara azul como símbolo e foi criado em 17 de agosto de 2016, por João Vgas, nome que consta na página principal. Tem 246 participantes ativos entre produtores rurais, grileiros, sindicalistas e comerciantes do município de Novo Progresso.

Primeiro grupo de WhatsApp conta com 246 membros
(Foto: Globo Rural)

 

Dos 246 participantes ativos do grupo “Jornal A Voz da Verdade”, 70 aprovaram os planos do "Dia do Fogo". Esses 70 formaram outro grupo, criado pelo comerciante Ricardo De Nadai, batizado de “SERTÃO”, uma alusão ao nome de seu estabelecimento comercial (a loja Sertão Agropecuária). O novo grupo ganhou mais 10 membros e fechou com cerca de 80.

O principal objetivo deste segundo grupo (SERTÃO) era incendiar, no dia 10 de agosto, áreas de matas e terras devolutas, fazendo o fogo avançar sobre a Floresta Nacional do Jamanxim, uma reserva de 1,3 milhão de hectares conhecida pela sua rica biodiversidade. A ideia era alcançar a Terra do Meio, área de conflitos agrários na Amazônia.

Pelo menos quatro membros do grupo, segundo apurou a revista Globo Rural, já foram presos por crimes ambientais. São conhecidos como grileiros que estão escrevendo uma lenda no sul do Pará. Do grupo fazem parte proprietários de redes de supermercados, lojas e fazendas da região. Alguns deles fizeram acordo com a Justiça e usam tornozeleira eletrônica.

Motoqueiros do fogo

No dia 10 de agosto, o “Dia do Fogo”, motoqueiros contratados pelo grupo circularam pelos distritos localizados às margens da BR-163 ateando fogo no capim seco dos acostamentos. Nessa época de seca, a vegetação das margens é combustível fácil. As chamas chegaram a interromper o trafego da rodovia em vários trechos.

O fogo se alastrou queimando cercas e ameaçando atingir as moradias. Todos que estavam em suas casas nas vilas ao redor da BR naquele dia avistaram esses homens de capacete ateando fogo. O crime foi realizado também no município vizinho de Altamira, recordista de desmatamento e queimadas do Brasil neste ano, e se estendeu até ao Distrito de Cachoeira da Serra.

Incêndio à beira da rodovia BR-163, no Pará. (Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)

 

A fumaça negra subiu ao céu e se juntou a uma outra, ainda mais escura, que pipocava de dentro da Floresta Nacional do Jamanxim, área de proteção ambiental muito visada pelos grileiros e garimpeiros da região. O lugar foi demarcado através de decreto assinado pelo presidente Lula em 2006, mas sempre sofreu a ameaça da exploração predatória pela proximidade da estrada Cuiabá-Santarém.

Faltou motosserra

No início de agosto, várias áreas de proteção ambiental sofreram ataques de motosserras na região. Primeiro se desmata, depois vem o fogo. Tudo foi planejado. Ninguém "ficou sem serviço", conta um operador de motosserra que não quis se identificar. Faltou gente, e peões foram trazidos de outras regiões da Amazônia e até do Nordeste.

Pistas clandestinas de pouso foram construídas no meio da mata para desembarcar gente. Tudo foi combinado com muita antecedência no Grupo SERTÃO. Uma das notícias que “bombou” foi a falta de óleo queimado.

"Bateu desespero em todo mundo”, conta o operador de motosserra. Sem óleo queimado não tem como derrubar as toras maiores. O óleo é usado para untar as correntes e facilitar a penetração dos dentes afiados que derrubam as árvores.  Outro assunto que "deu muito Ibope" no grupo, foi em relação a data em que seria realizado o "Dia do Fogo", todos concordaram que deveria ser antes das chuvas. O dia 10 de agosto acabou vencendo.

Governo foi alertado

Três dias antes do ocorrido (7 de agosto), o promotor Gustavo de Queiroz Zenaide, do Ministério Público, lotado na cidade, comunicou o fato ao gerente executivo do Ibama de Santarém, Roberto Fernandes Abreu, através de ofício.

O documento foi protocolado pelo Ibama de Santarém no dia 08 de agosto. Nele o procurador escreve: “produtores rurais planejam realizar uma queimada na região do Município de Novo Progresso na data de 10 de agosto de 2019 como forma de manifestação.”

E para finalizar a denúncia, o promotor acrescentou: “a manifestação dos produtores rurais, caso levada a cabo, ensejará sérias infrações ambientais que poderá, até mesmo, fugir ao controle e impedir a identificação da autoria individual, haja vista a perpetração coletiva.”

Na denúncia feita pelo promotor, estão bem claras as intenções do grupo: “chamar a atenção das autoridades que na região o avanço da produção acontece em apoio ao governo”, escreveu em negrito o promotor Gustavo de Queiroz Zenaide, na sua denúncia feita três dias antes. E continuou acentuando em negrito: “mostrar para o Presidente que queremos trabalhar e o único jeito é derrubando e para formar e limpar nossas pastagens é com fogo.”

Até agora, o que se sabe é que o Delegado da Polícia Civil de Novo Progresso, Daniel Mattos Pereira, ouviu pelo menos três pessoas sobre o caso, uma delas é o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, Agamenon Menezes. Só depois que a revista Globo Rural denunciou a existência do Grupo de whatsapp, o governo veio a público pedir investigação rigorosa, como mostra o documento publicado no Diário Oficial, endereçado ao Ministro Sérgio Moro.

 (Foto: Reprodução DOU)

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.