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PACOTE DE LULA NA CAMPANHA: PROMESSAS BILIONÁRIAS, DÚVIDAS SOBRE O FINANCIAMENTO E ALERTA DA LEGISLAÇÃO ELEITORAL
A dez dias do segundo turno, presidente anuncia passe livre nacional e amplia a lista de medidas sociais e econômicas. TSE tem precedentes sobre benefícios públicos usados para promoção eleitoral, mas eventual irregularidade precisa ser demonstrada em cada caso.
16/10/2026 12h04
Por: São Gonçalo Agora
PROMESSA DE CAMPANHA OU USO DA MÁQUINA PÚBLICA?

A poucos dias do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou a divulgação de medidas econômicas e sociais associadas à sua candidatura à reeleição. O anúncio mais recente é a promessa de apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para garantir transporte público gratuito aos fins de semana e feriados em todo o país, a partir de 2027, caso seja reeleito.

A proposta foi divulgada pelo próprio presidente em vídeo e nas redes sociais, vinculada à discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1. Lula afirmou que pretende utilizar emendas parlamentares para financiar a iniciativa, mas não apresentou, no anúncio, um detalhamento completo do custeio. O deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP) estimou o custo anual em aproximadamente R$ 16 bilhões. 

O passe livre se soma a outras iniciativas anunciadas durante a campanha, incluindo medidas para microempreendedores individuais, renegociação de dívidas, subsídios aos combustíveis e a promessa de ampliar o Pé-de-Meia para estudantes universitários.

A questão central não é se o governo pode propor benefícios sociais. Pode. O que precisa ser examinado é se cada medida tem respaldo legal e financeiro, como está sendo executada e se a divulgação eleitoral respeita as restrições ao uso da máquina pública.

R$ 74,6 BILHÕES: QUEM VAI PAGAR A CONTA?

Uma reportagem publicada pelo UOL em 15 de outubro estimou em R$ 74,6 bilhões o impacto fiscal de dez medidas do chamado pacote de benefícios até 2027. Segundo o levantamento, cinco iniciativas somariam R$ 23,7 bilhões sem uma fonte de compensação claramente definida. O governo, por sua vez, sustenta que parte das despesas pode ser acomodada no orçamento e que determinadas medidas contam com fontes de recursos identificadas. 

O número merece atenção, mas precisa ser interpretado corretamente: trata-se de uma estimativa de impacto fiscal do conjunto de medidas, e não de uma comprovação de irregularidade eleitoral ou de que todo esse valor será necessariamente gasto em 2026.

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Ainda assim, a pergunta é inevitável: antes de anunciar novos benefícios, o governo apresentou estimativas suficientes de custo, fontes de financiamento e condições para manter as despesas nos anos seguintes?

No caso do passe livre, o desafio é ainda maior porque a proposta pretende alcançar cidades de todo o Brasil, com sistemas de transporte e capacidades financeiras muito diferentes. O financiamento por emendas parlamentares também exige esclarecimentos sobre a distribuição dos recursos e a continuidade do programa.

A PROPAGANDA ELEITORAL É O PONTO QUE EXIGE INVESTIGAÇÃO

Existe uma diferença jurídica fundamental entre prometer um benefício para um eventual novo mandato e utilizar um benefício público já concedido para promover eleitoralmente uma candidatura.

O artigo 73, inciso IV, da Lei nº 9.504/1997 proíbe o uso promocional, em favor de candidatos, da distribuição gratuita de bens e serviços de caráter social custeados ou subvencionados pelo poder público.

Já o § 10 do mesmo artigo restringe a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública durante o ano eleitoral, ressalvadas as exceções previstas na legislação.

A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral contém precedentes sobre gratuidade de transporte coletivo associada à promoção eleitoral. Em decisão relativa às eleições de 2022, o TSE reconheceu a configuração de conduta vedada em circunstâncias nas quais a divulgação da gratuidade, na véspera da votação, estava vinculada à promoção eleitoral. A Corte também tem decisões que exigem autorização legal específica e execução orçamentária efetiva no exercício anterior para o enquadramento na exceção destinada a programas sociais. 

Esses precedentes são relevantes para a fiscalização do pacote anunciado por Lula, mas não autorizam concluir automaticamente que o presidente cometeu uma infração.

É necessário identificar quais medidas já foram efetivamente concedidas, quais foram apenas anunciadas, quais atos administrativos as sustentam e de que maneira os benefícios aparecem na propaganda eleitoral.

PROMESSA DE CAMPANHA OU USO DA MÁQUINA PÚBLICA?

Se Lula anuncia que, em um eventual segundo mandato, pretende instituir o passe livre por meio de uma PEC, está apresentando uma proposta política. O anúncio, isoladamente, não caracteriza distribuição de benefício público nem comprova abuso eleitoral.

A situação merece análise diferente quando um programa já em execução é ampliado ou distribuído em ano eleitoral sem atender aos requisitos legais, ou quando a gratuidade financiada pelo poder público é utilizada para promover uma candidatura em circunstâncias proibidas.

Também é necessário verificar quem produziu e pagou cada peça publicitária. Material contratado e custeado regularmente pela campanha não se confunde automaticamente com publicidade institucional paga pelo governo. Por outro lado, o emprego de servidores, equipamentos, recursos ou canais oficiais para favorecer eleitoralmente um candidato pode levantar questões jurídicas próprias.

O TSE não exige que toda conduta vedada tenha uma finalidade eleitoral comprovada: em determinadas hipóteses, como a distribuição irregular de benefícios prevista no § 10, a infração pode decorrer objetivamente do descumprimento dos requisitos legais. Já a caracterização de outras condutas depende dos elementos específicos previstos na norma aplicável.

O QUE DEVE SER COBRADO DO PRESIDENTE?

A fiscalização precisa responder a perguntas objetivas:

Essas respostas permitem diferenciar uma política pública legítima, uma promessa eleitoral ainda não concretizada e uma eventual infração que mereça investigação pela Justiça Eleitoral.

RESPEITO ÀS LEIS NÃO PODE SER APENAS UM DISCURSO

O presidente tem o direito de apresentar propostas, defender programas sociais e buscar a reeleição. O eleitor, por sua vez, tem o direito de conhecer os custos, as fontes de financiamento e as condições necessárias para que cada promessa se transforme em política pública.

A divulgação concentrada de benefícios perto da votação justifica escrutínio jornalístico, especialmente quando há dúvidas sobre o financiamento e quando a propaganda associa as medidas à candidatura. Mas a proximidade da eleição, por si só, não comprova ilegalidade.

A cobrança deve valer para todos os candidatos, independentemente do partido: nenhum governante pode utilizar o patrimônio público para obter vantagem eleitoral fora dos limites legais, e nenhum benefício deve ser considerado regular apenas porque foi anunciado por uma autoridade.

A pergunta que fica para Lula e sua equipe é direta: quais dessas promessas já têm respaldo legal, financiamento demonstrado e condições regulares de execução — e quais ainda dependem de decisões futuras?

A resposta precisa estar nos documentos oficiais, nos atos de execução orçamentária e nas regras eleitorais aplicáveis. Se esses elementos revelarem irregularidades, caberá aos órgãos competentes apurá-las. É assim que a fiscalização deixa de ser apenas disputa de discurso e passa a ser cobrança fundamentada de responsabilidade pública.