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Saúde #DoriaMentiroso

Como o marketing de Doria turvou as virtudes da Coronavac

Adiamentos de anúncio e divulgação parcial de dados de eficácia alimentaram as incertezas e podem prejudicar a imunização no país, segundo pesquisadores

14/01/2021 09h59
Por: Sandro Araújo
Aa taxa de 100% de eficácia em casos moderados e graves, que havia sido divulgada inicialmente, não pode ser considerada, pois se baseia apenas em sete casos observados nos estudos, e o número é estatisticamente insuficiente
Aa taxa de 100% de eficácia em casos moderados e graves, que havia sido divulgada inicialmente, não pode ser considerada, pois se baseia apenas em sete casos observados nos estudos, e o número é estatisticamente insuficiente

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tornou-se alvo de críticas pela forma como foram divulgados os resultados dos testes da Coronavac, vacina que está sendo produzida pelo Instituto Butantan por meio de uma parceria com o laboratório chinês Sinovac.

O anúncio de dados parciais num primeiro momento e a demora para revelar a taxa global de eficácia da vacina foram vistos por parte da comunidade científica como prejudicial para o entendimento da população sobre a importância de se vacinar, num contexto de crescente atuação de grupos antivacinação, inclusive no Brasil.

Dados do Datafolha também mostram que a resistência da população em se vacinar tem aumentado. Em dezembro de 2020, 22% dos entrevistados disseram que não pretendiam tomar a vacina contra a covid-19 — em agosto, esse número era de 9%. A porcentagem de quem resiste à vacinação aumenta para 50% quando o entrevistado é perguntado se toparia receber um imunizante desenvolvido na China.

A mudança na opinião da população coincide com o período em que o presidente Jair Bolsonaro passou a se manifestar contra a vacinação, embora não seja possível dizer que essa tenha sido essa a causa principal na tendência captada pela pesquisa.

As lacunas na comunicação

Depois de uma série de adiamentos no final de 2020, Doria anunciou em 7 de janeiro que a taxa de eficácia da Coronavac variava de 78% (considerando casos leves que precisam de intervenção médica) a 100% (para casos moderados que requerem internação ou graves).

Os dados foram comemorados, mas considerados insuficientes pela comunidade científica. Faltava a divulgação do número de infectados entre os voluntários que tomaram a vacina e entre os participantes que receberam um placebo (substância sem efeito). A comparação entre os dois grupos testados permite o cálculo global da eficácia. O governo paulista disse que os números não foram divulgados inicialmente porque o contrato com o laboratório Sinovac, que desenvolveu a vacina, não permitia.

A taxa global, de 50,38%, só foi revelada pelo Instituto Butantan na terça-feira (12), após pressão e críticas da comunidade científica. O número é o mínimo aceitável pela OMS (Organização Mundial de Saúde), pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pelas agências reguladoras de outros países para a aprovação de uma vacina contra a covid.

Além disso, foi dito que a taxa de 100% de eficácia em casos moderados e graves, que havia sido divulgada inicialmente, não pode ser considerada, pois se baseia apenas em sete casos observados nos estudos, e o número é estatisticamente insuficiente.

Doria, que havia participado da divulgação dos dados parciais, não esteve no anúncio dos resultados completos. O governo abriu espaço durante a divulgação para cientistas de fora do Butantan comentarem os resultados de modo a reforçar a urgência da aprovação da Coronavac. O pedido emergencial para seu uso está sendo analisado pela Anvisa, ligada ao governo federal. O órgão deve decidir sobre o tema no domingo (17).

A eficácia ficou abaixo da obtida por outros imunizantes, como os da Pfizer e da Moderna, que superaram os 90%. Mas os números não são comparáveis porque cada teste usou critérios próprios, com recortes diferentes.

Mesmo com 50,38% de eficácia, a vacina comprada pelo Butantan funciona, provou-se segura e será fundamental para desafogar o sistema hospitalar e reduzir o número de mortes pela covid-19. Para isso, segundo os cientistas, ela deve começar a ser aplicada o quanto antes de maneira ampla, tendo em vista o agravamento da pandemia no país. O temor dos cientistas é que os erros de comunicação não tenham deixado isso claro para a população.

O médico Drauzio Varella chamou de “trapalhada” a forma como o governo paulista tratou os dados, em entrevista à GloboNews. “Isso é uma demonstração do que acontece quando assuntos técnicos e científicos servem de argumentos para uso político. Tivemos desde o início essa dicotomia entre governo de São Paulo e Ministério da Saúde”, disse.

Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, na quarta-feira (13), o médico e advogado Daniel Dourado disse que a comunicação sobre as vacinas tem se concentrado em números que ninguém entende bem, deixando a população confusa e desconfiada, situação agravada pela atuação do presidente Bolsonaro em desacreditar a vacinação.

“É consenso entre cientistas e formuladores de políticas sanitárias que a cobertura vacinal é um elemento mais importante do que a eficácia das vacinas para controlar uma epidemia. Ou seja, é preferível uma vacina com menor eficácia que chegue a toda a população-alvo a uma vacina mais eficaz, mas que só possa ser disponibilizada a uma parcela dessa população. Por isso, a comunicação precisa ter como meta incentivar o maior número possível de pessoas a se vacinarem”, escreveu.

A politização da vacina

O governo de São Paulo vem planejando a própria vacinação sem contar com o Ministério da Saúde. Em junho de 2020, firmou parceria com o laboratório chinês Sinovac para a realização de testes da vacina no Brasil e a produção do imunizante pelo Instituto Butantan caso ele se mostrasse eficaz. No final de setembro, sem sequer ter concluído os testes, Doria anunciou a intenção de disponibilizar a Coronavac para os grupos prioritários na segunda quinzena de dezembro de 2020. Depois, com o atraso nos testes, adiou a iniciativa para 25 de janeiro.

É papel do governo federal planejar e executar um plano nacional que garanta a toda a população, independente da região onde ela estiver, o acesso à vacina. Desde os anos 1970, com a criação do Programa Nacional de Imunizações, o país passou a ter um calendário único de vacinação, coordenado pelo Ministério da Saúde.

A decisão sobre a liberação das vacinas da Fiocruz e do Butantan está marcada para o domingo (17). O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que a distribuição para os estados ocorrerá de três a quatro dias após a aprovação de um imunizante. Numa primeira etapa, apenas grupos prioritários como profissionais de saúde, idosos com 75 anos ou mais, indígenas e quilombolas devem ser vacinados.

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