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Educação Ensino híbrido

Menos de 30% das escolas têm estrutura para ensino híbrido, alertam especialistas

A pandemia pegou o mundo de surpresa e o país ainda se prepara para o ensino à distância

27/11/2020 15h40
Por: Sandro Araújo
Menos de 30% das escolas têm estrutura para ensino híbrido, alertam especialistas

 

É preciso garantir pelo menos que as escolas brasileiras tenham estrutura suficiente em 2021 para que o modelo híbrido de ensino possa ser oferecido aos alunos, que precisarão aprender não apenas os conteúdos do ano que vem, mas recuperar conteúdos deste ano perdidos por conta da pandemia de Covid-19.

Essa foi a defesa feita pela diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira, Lúcia Dellagnelo, durante debate (na quarta-feira, 25) sobre projeto (PL 3477/20) que prevê a garantia de serviços de internet de qualidade a estudantes da escola pública. A proposta determina que o dinheiro para essa política pública venha do Fust, Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações.

A deputada Professora Dorinha Seabra Rezende (DEM-TO), uma das autoras do projeto em discussão e coordenadora da Frente Parlamentar Mista da Educação, explicou que o objetivo foi aproveitar o momento em que, por causa da pandemia, o país opera sob o chamado orçamento de guerra, e garantir esses recursos para a conectividade.

“Nós chamamos o Fust de ‘fruste’, porque quando ele foi criado, em 2001, nós tínhamos uma expectativa muito grande de que esse recurso pudesse ajudar, na época, as escolas, a conectividade, a comunicação. Hoje tem cerca de R$ 32, R$ 36 bilhões, esse dinheiro nunca foi utilizado pra nada, a não ser superávit primário, e nós precisamos enfrentar, e aproveitar também o orçamento de guerra pra dar esse apoio. Porque também é nosso olhar de que as redes municipais e estaduais estão muito sós.”

Segundo dados levados por Lúcia Dellagnelo à audiência, menos de 30% das escolas públicas brasileiras possuem estrutura considerada intermediária, que permitiria o ensino híbrido, ou seja, parte presencial, parte remota. Mas, segundo a diretora do Centro de Inovação para a Educação Brasileira, não seria um custo impeditivo para garantir, rapidamente, a ampliação desse percentual.

“Não são números impossíveis, na casa de milhões por escola. Uma escola pequena, por exemplo, que já tenha um laboratório de informática, com R$ 30 mil por ano de investimento é possível que ela passe pro nível intermediário e seja capaz de oferecer esse ensino híbrido.”

De acordo com Dellagnelo, a experiência internacional demonstra que as escolas que já estavam preparadas para o ensino híbrido conseguiram garantir rapidamente os equipamentos necessários para alunos mais carentes, também fora do ambiente escolar.

Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas) da Fundação Getúlio Vargas, ressaltou que, apesar de a pandemia ter pego o mundo de surpresa e o país não estar preparado para o ensino à distância, 82% dos municípios conseguiram dar alguma resposta nesse sentido.

Ela concorda que a solução mais rápida talvez passe por equipar as escolas para o ensino híbrido.

“Se a gente tiver que fazer uma escolha do ponto de vista fiscal, de priorização, eu colocaria todas as fichas em equipar as escolas com maior conectividade, porque o dado de 30% que a Lúcia trouxe, num nível intermediário, nós podemos rapidamente construir uma solução não para todos os alunos terem os seus equipamentos em casa, esse seria o mundo ideal, mas pelo menos as escolas todas estarem no nível intermediário é algo factível.”

A secretária da Educação de Manaus, Kátia Schweickardt, comentou sobre as dificuldades no município, localizado em meio à floresta, com 245 mil alunos em 500 escolas, sendo algumas delas indígenas, outras bilíngues. Para ela, os aprendizados obtidos com as experiências desse ano, e as diferenças regionais, devem ser levados em conta.

“A gente, de modo muito pioneiro, com a parceria da secretaria de Estado, veiculou essas aulas e essas atividades por TV aberta, eu acho que isso foi muito importante e é uma coisa que a gente tem que pensar. A gente está pensando muito que o ensino híbrido, em determinadas regiões, o custo da conectividade é muito elevado.”

Relatora do projeto que destina recursos para o acesso gratuito à internet de alunos e professores de escolas públicas, a deputada Tábata Amaral (PDT-SP) ressaltou a urgência da proposta, já que no ano que vem alguns professores e alunos ainda não poderão voltar às aulas presenciais, por fazerem parte do grupo de risco. E destacou a importância de garantir o acesso de todos à educação.

“O Banco Mundial lançou um estudo recente, e estimou que cinco meses sem educação por causa do coronavírus pode gerar uma perda de 10 meses de aprendizado. Sendo que os alunos brasileiros são aqueles que estão há mais tempo sem acessar as aulas presenciais. Então, de fato, é um desafio gigantesco, a gente está vendo o aprofundamento da desigualdade educacional e, nesse momento, esse é um dos temas mais importantes que todos nós, como ativistas pela educação, devemos enfrentar e apresentar uma solução pra ele.”

Izabel Lima Pessoa, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, disse que o projeto em discussão é importante, mas defendeu a aprovação de outra proposta, que já passou pela Câmara e está no Senado, e cria a Política de Inovação Educação Conectada (PL 9165/17). Segundo ela, a proposta é mais abrangente e cria uma política de “forma mais orgânica”.

Sobre esse tema, a deputada Tábata Amaral disse que os projetos não são excludentes, mas esse último é mais complexo e não se resolve até o final do ano. Para ela, a proposta que garante recursos do Fust para a conectividade de alunos e professores está “mais ao nosso alcance”.

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