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Geral Pandemia

Aumento da desigualdade de gênero com a volta ao trabalho sem o retorno às aulas

Qual solução mágica querem que seja dada por mães que tem filhos em casa, mas que precisam sair para trabalhar?

27/07/2020 11h39
Por: Sandro Araújo
Crédito: Pixabay
Crédito: Pixabay

Alguns jornais têm trazido reportagens sobre como as mulheres ficaram sobrecarregadas com a pandemia da Covid-19. E não é à toa. Infelizmente, além de todas as questões envolvendo o medo da doença, a potencial redução salarial, a perda do emprego, de projetos e de perspectivas, muitas mulheres ainda tiveram que assumir sozinhas o ônus da maternidade, ou seja, aquela parte que a sociedade não gosta muito de debater, pois afinal de contas, ser mãe seria somente um presente e não um peso, na cabeça de muitos.

Claro que não se pode generalizar. Há muitos pais solteiros responsáveis por seus filhos e outros que estão em casa efetivamente exercendo o seu papel de pai e compartilhando as tarefas domésticas, mas a verdade é que o número de famílias brasileiras chefiadas por mulheres cresceu 105% entre 2001 e 2015, segundo a pesquisa “Mulheres Chefes de Família no Brasil: Avanços e Desafios”.

Nos casos em que temos estruturas familiares mais tradicionais, formadas por pais, mães e filhos, seguimos o padrão de sempre: pais focados em seus trabalhos, em cumprir a sua agenda, entregando resultados e mães assumindo a responsabilidade de conciliar aulas on line, almoço, jantar, limpeza da casa e ainda cumprindo com as tarefas do trabalho, na medida do possível. Muitas trabalham de madrugada. Outras deixam os filhos vendo televisão ou eletrônicos por muito mais tempo do que gostariam. Enfim, cada uma se vira como dá.

E o que já estava sendo ruim, tende a piorar com a abertura da economia em alguns lugares do Brasil. Se antes a realidade era esta, mas ao menos era de certa forma compartilhada por muitas famílias de forma mais equânime, pois pais e mães trabalhavam remotamente, como ficamos quando estados determinam a volta ao trabalho, com a abertura de bares, shoppings, restaurantes e do comércio em geral, sem prover a volta às aulas às crianças?

É compreensível que se discuta que a volta à “normalidade” seja gradual, pois há que se tomar todas as medidas necessárias para a redução do risco de um aumento na contaminação de coronavírus, mas qual solução mágica querem que seja dada por mães que tem filhos em casa, mas que precisam sair para trabalhar?

Novamente, a balança pesa muito mais para o lado da mulher. Ela poderá voltar ao trabalho? Em muitos casos, não. Não tem escola ou creche disponível, não poderá deixar os filhos com os avós, não tem dinheiro para pagar uma babá ou cuidadora. E, como resultado, será tratada como um “problema” em seu trabalho. Terá que, por exemplo, fazer um acordo com o seu chefe para continuar trabalhando alguns dias de casa – o que provavelmente não foi feito por muitos homens. Não poderá participar de algumas reuniões ou discussões importantes, pois estará trabalhando de casa enquanto cuida do filho. Enfim, enfrentará situações que simplesmente não ocorrerão com seus pares homens.

Nesta semana foi publicado pela Deb Perelman, colunista do The New York Times, um artigo muito interessante chamado “In the Covid-19 Economy, you can have a kid or a job. You can’t have both”, em tradução literal: “Na economia do Covid-19, você pode ter um filho ou um emprego. Você não pode ter os dois”. Neste, ela argumenta que deveria ser condição não negociável para a “volta ao normal” que as condições familiares também voltassem ao normal. E chama a atenção para a falta de discussão sobre o tema. Como se fosse “normal” termos uma volta ao trabalho sem termos condições de os filhos voltarem à escola ou às creches.

Claramente este tema precisa ser debatido localmente da mesma forma. Os governos precisam entender que a volta gradual da economia deveria ser acompanhada de condições para que as pessoas voltem às suas atividades, especialmente as mulheres, que já foram tão impactadas com o trabalho remoto enquanto seus filhos estavam sem escola.

Não trazer este tema para a discussão é ampliar ainda mais a desigualdade de gênero que temos em nosso país, com um impacto brutal às famílias que são cuidadas e providas por essas mesmas mulheres. Não é bom negócio para a economia deixar mulheres desempregadas ou sem condições de cuidarem de seus filhos, exigindo o retorno ao trabalho, mas não oferecendo condições adequadas para tanto.

A desigualdade de gênero, nesse caso, segue a par e passo com a desigualdade social e precisa ser combatida de frente e com transparência, seja pelo Estado, pelas empresas e pela sociedade civil como um todo.

Juliana Marques Kakimoto – Diretora Jurídica e de Compliance da Givaudan do Brasil Ltda, tendo trabalhado anteriormente multinacionais como a DHL e a General Motors. Desde o início de 2020 assumiu a liderança do grupo Juridico de Saias.

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