Mulheres que não se elegeram têm certeza que foram usadas como 'laranja' por partidos investigados

Patriota, Solidariedade, Podemos, PHS e PMB são os partidos que mais aparecem sob suspeita.
Raquel Oliveira tentou se eleger deputada estadual por São Paulo nas últimas eleições, mas só conseguiu 196 votos. O partido que abrigou a candidatura foi o Patriota, presidido por Adilson Barroso, que tentou uma vaga de deputado federal, mas também ficou pelo caminho.

Raquel não tem dúvida de que o seu nome foi usado apenas para cumprir a cota mínima estipulada pelo Tribunal Superior Eleitoral, que determina que 30% das candidaturas e dos recursos do fundo de financiamento sejam destinados às mulheres.

Moradora do Grajaú, na zona sul da capital, ela trabalha em um projeto social com crianças e o marido tem um bar. A ex-candidata disse que tentou conversar com Adilson Barroso, hoje vereador e presidente da Câmara Municipal de Barrinhas, no interior do estado.

Faltando apenas 20 dias para o primeiro turno, a única ajuda que recebeu foram 250 mil santinhos.

Raquel só conseguiu distribuir cerca 30 mil e não tem dúvida que foi uma candidata laranja do Patriota.

"Não tive tempo de trabalhar, eu tive que arrumar pessoas para fazer a campanha política, assim, no boca a boca. Vinte pessoas pra pagar seiscentos reais pra cada uma. Tô devendo, fiquei devendo quase sessenta mil reais, e temos prova disso, com aluguel de veículos, gasolina. Eu sou laranja, limão, tangerina, esses tipos de coisa", ironizou a ex-candidata.

Derlânia Lima também tentou ser deputada estadual, mas só conseguiu 426 votos. Recebeu santinhos, que tinham a foto dela e de Adilson Barroso. Uma condição, segundo ela.

"Eu tive que ir várias vezes até o comitê, correr atrás do presidente do partido, que é o Adilson Barroso, pra conseguir uma ajuda. Ele dizia que não tinha dinheiro. Depois de muita insistência, faltando uma semana para as eleições, eles depositaram dois mil reais na minha conta. Os santinhos foram fornecidos pelo Adilson Barroso, né, que disse que pagou do próprio bolso porque (o partido) não tinha dinheiro. E todo santinho vinha com a foto dele e (ele dizia) que se eu quisesse fazer a dobrada com outro candidato, eu teria que pagar do meu próprio bolso", contou Derlânia.

Vereador e presidente nacional do Patriota, Adilson Barroso, rebateu dizendo que tem explicação para cada questionamento que a Justiça queira fazer.

"Tô pronto, prontinho pra esclarecer. Tem candidatura que vem até com zero voto. Eu, mais do que ninguém, gostaria que essas mulheres tivessem votos para que eu pudesse passar a cláusula de barreira (instrumento criado para reduzir o número de partidos com pouca representação na Câmara dos Deputados). O pessoal fala de mulheres, mas eu tô cheio de homens que não tiveram voto Brasil afora. Eu tive mais de mil candidaturas", argumentou.

Barroso afirmou que entende candidatura laranja de outro jeito.

"Se você dissesse pra mim, Adilson, você deu 400 mil contos pra uma candidata, um candidato, e ele teve 200 e poucos votos, então foi um candidato laranja. Aí sim, eu considero que é candidato laranja, Agora, considerar candidato laranja só porque ele não teve voto e nós, no desespero, trazendo tudo que é candidato que tenha ficha limpa pra ser candidato?", questionou o presidente do Patriota.

De acordo com a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo, indícios apontam que os partidos investigados lançaram as candidatas, mas não queriam que elas fossem eleitas. Queriam apenas atingir a cota de 30% de candidaturas femininas para garantir o fundo eleitoral.

As próprias candidatas, em alguns casos, denunciaram. Algumas já prestaram depoimento e outras ainda devem der ouvidas.

Aproximadamente cem candidaturas são investigadas, cerca de 40 já têm pedido de impugnação de contas e pelo menos 60 são de candidatas laranja.

Sandro Araújo

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