Epidemia? Número de mortes por H1N1 na Bahia já é cinco vezes maior que em 2017

Especialista fala em epidemia; Sesab nega 
Em apenas quatro meses, o vírus H1N1 já matou 11 pessoas na Bahia. A situação é muito mais grave do que no ano passado quando, ao longo de todo 2017, duas pessoas morreram em decorrência dessa variação da gripe por aqui. Os dados foram divulgados, ontem, pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e, embora a pasta não trate assim, há especialistas que dizem que a Bahia já vive uma epidemia da doença.

É o que defende a infectologista Ana Paula Alcântara. “Uma epidemia significa o aumento do número de casos em relação ao mesmo número do ano anterior. Então, quando você olha o ano passado e agora, você vê a gravidade nesse contexto”, diz. Procurada, a Sesab disse que não há epidemia na Bahia.

Apesar das 11 mortes confirmadas, o Ministério da Saúde ainda trabalha com dados do último dia 7 - quando a Bahia tinha cinco óbitos por H1N1. Ainda assim, o órgão federal já apontava um dado alarmante: que o estado era o segundo com maior número de mortes do país, ficando atrás apenas de Goiás.

Porém, nem a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), nem a Sesab pretendem antecipar o início da vacinação - a campanha nacional começa na segunda-feira (23). Através da assessoria, a SMS informou que ainda não tem informações sobre quantas doses serão disponibilizadas para a cidade na primeira remessa. As primeiras vacinas devem chegar a Salvador até a manhã de hoje.

A vacina precisa ser tomada anualmente porque os vírus sofrem muitas mutações e, com isso, têm seu genoma alterado. Por isso, a cada ano, existe uma variação de um grupo viral para outro, segundo o infectologista José Tavares Neto, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

“Isso altera a capacidade que o ser humano tem de combater esse novo sorogrupo. Por isso, os sistemas nacionais isolam esse novo sorogrupo, fazem uma mistura e preparam uma vacina anual”, explica.

Proteína

O H1N1, na verdade, é um subtipo do vírus Influenza do tipo A - a mais frequente. Na estrutura da molécula do vírus, existem proteínas que diferenciam um tipo de outro, como explica a infectologista Ana Paula Alcântara, professora da Faculdade Bahiana de Medicina e médica dos Hospitais Santo Amaro, Roberto Santos e Aliança. São as proteínas que tornam a estrutura do H1N1 diferente do H3N2 e outras variedades.

“O vírus Influenza A é caracterizado por epidemias sazonais. Ou seja, acontece de períodos em períodos, geralmente na época de Inverno que, no Brasil, é de abril a setembro”, diz Ana Paula.

A numeração em cada subtipo também é devido ao tipo de proteína - existe um catálogo internacional com letras e números combinados, segundo José Tavares Neto. Alguns, como o H1N1 e o H3N2, são mais virulentos - ou seja, provocam doença com mais frequência.

“Por isso, o temor do que está acontecendo em Goiânia e na Região Metropolitana de Goiânia. Aparentemente, lá, o H1N1 está causando uma letalidade maior e um tempo de doença maior para aqueles que sobrevivem”, aponta o médico. Em Goiás, pelo menos 13 pessoas já morreram em decorrência do vírus H1N1 este ano - cinco delas apenas na capital.

Pandemia

A última grande pandemia - epidemia disseminada em todo o planeta - foi causada justamente pelo H1N1, em 2009. Naquela época, países como Brasil, Estados Unidos e México chegaram a registrar mais de 50 mil casos da doença cada um - só no Brasil, pelo menos duas mil mortes.

Agora, no biênio 2017-2018, o H1N1 volta a aparecer de forma crescente em alguns estados do Brasil. Os sintomas são praticamente os mesmos de uma virose respiratória, como febre muito alta, tosse e dor de garganta. A diferença é que a dor de garganta vem acompanhada de outras dores - como a cabeça e o resto do corpo, além de diarreia e náuseas.

“A população precisa se preocupar com a duração da febre e a intensidade. Se forem mais de três dias de febre alta, com mais do que 38, 39 graus, pode ser um sinal”, afirma Ana Paula. O tratamento deve ser feito com medicamentos antivirais.

O tempo de doença varia de 10 a 20 dias - pode piorar a depender da idade e do número de doenças associadas.

“No início, é como uma gripe qualquer, mas, à medida que a doença progride, pode ocorrer uma febre mais elevada e associada à pneumonia, que é a complicação mais temida”, diz José Tavares Neto. A febre causada pelo H1N1 pode chegar a 40°.

Letalidade

Não há, ainda, um percentual de letalidade da H1N1 no Brasil, já que isso varia anualmente. No entanto, na Ásia, o índice é de 2,4 a 2,9 mortes para cada 5 mil ocorrências. “Mesmo assim, não são dados comparáveis, por ser uma população completamente diferente da nossa e com diferentes condições sanitárias”, pondera o infectologista.

Um dos quadros agravados do vírus é a chamada Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), pneumonia que ficou mundialmente conhecida após surto na China, em 2002. Qualquer doença que atinja os pulmões pode levar à SRAG, diz a infectologista Ledívia Espinheira, do Hospital Aeroporto e do Hospital Geral Menandro de Faria.

“Acontece muito com pacientes imunossuprimidos, mas não exclusivamente. É uma síndrome muito acelerada que faz com que o paciente tenha quadros graves de infiltração no pulmão, mesmo com o antiviral específico”, explica.

A vacinação

A imunização será distribuída gratuitamente nas 126 salas de vacina do município, sempre das 8h às 17h. Terão prioridade, contudo, os grupos definidos pelo Ministério da Saúde, que incluem crianças de seis meses a menores de cinco anos; gestantes; mulheres que deram à luz em um período de 45 dias antes; profissionais de saúde; professores; povos indígenas; pessoas com 60 anos ou mais; adolescentes e jovens com idades entre 12 e 21 sob medidas socioeducativas; população privada de liberdade e funcionários do sistema prisional e pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis e outras condições clínicas especiais independe da idade.

Veja o número de casos e de óbitos por H1N1 na Bahia desde 2009:

2009 - 252 casos (19 mortes)
2010 - 5 casos (1 morte)
2011 - 1 caso (nenhuma morte)
2012 - 9 casos (nenhuma morte)
2013 - 50 casos (11 mortes)
2014 - 5 casos (1 morte)
2015 - Nenhum caso
2016 - 139 casos (30 mortes)
2017 - 2 casos (2 mortes)
2018 - 33 casos (5 mortes)* - Até 7 de abril de 2018, segundo o Ministério da Saúde



Correio

Sandro Araújo