Autorização de Germano é vista como "Intolerância Religiosa" e causa polêmica em São Gonçalo

A origem da discussão na Câmara de Vereadores foi uma espécie de "ofício" assinado pelo prefeito Carlos Germano, autorizando os evangélicos a intercederem em oração por São Gonçalo dos Campos. O "documento" circulou nos últimos dias em grupos de WhatsApp gerando muitos questionamentos em torno da autorização do prefeito.

"Eu, José Carlos da Silva Araújo, prefeito municipal, autorizo os evangélicos, a intercederem em oração por essa cidade, em São Gonçalo dos Campos." Diz o documento.

Após conhecimento dessa autorização, integrantes de religiões de matrizes africana em São Gonçalo, através do Instituto Ynsuá Leji, quem representa essas religiões na cidade, solicitaram espaço na Tribuna Popular da Câmara para repudiar o que eles entenderam como "exclusão" de suas religiões, uma ofensa e "exclusividade" para os evangélicos na autorização do prefeito.

A professora Rosane Pontes, primeira a fazer uso da Tribuna leu uma "Carta aberta em defesa da liberdade religiosa". A professora disse que - "o Estado e a religião não podem se confundir, a gestão municipal e a religião que as pessoas da cidade expressam não pode se confundir. Nem o Brasil, nem o Estado, nem São Gonçalo pode ter uma religião oficial. A liberdade religiosa é um patrimônio social, que precisa ser devidamente resguardada, e, que os vereadores, como representantes desse povo, precisam resguardar isso também", disse Rosane.

Ao se pronunciar sobre o assunto, o vereador Cau de Lili disse que o prefeito foi infeliz e não precisava disso. O vereador Escurinho também disse ter sido um ato infeliz do prefeito. "Não sei onde que ele tava com a cabeça qui..., ou ele não leu esse documento né? ou realmente ele queria ferir alguém. Ele não pode autorizar os evangélicos a fazer isso, ele não tem esse direito, a Casa Legislativa quem autoriza ele a fazer, acredito que o prefeito vai se retratar sobre o fato", disso Escurinho.

Em defesa do prefeito, o vereador Saturnino, reconheceu que Germano "pecou" porque não deveria ter dado essa autorização por escrito. "Ele autorizou os evangélicos mais não desautorizou a ninguém de outra religião a fazer o mesmo. Talvez de uma forma infantil autorizou". Saturnino lembrou que o prefeito não tem nada contra os religiosos de matrizes africana, até porque, o prefeito, no dia de Yemanjá, passou o dia todo na casa de "Pai Nem" [casa de candomblé] e foi motivo de chacota na cidade.

Já o Sr. José Jorge, que também fez uso da Tribuna Popular, disse que a autorização da forma que foi feita abre precedente para à intolerância religiosa na cidade. Como membro conselheiro de entidades de combate à desigualdade racial e intolerância religiosa, José Jorge pediu uma retratação do prefeito e, aos vereadores, o "repúdio da autorização".

O presidente do Instituto Ynsuá Leji, José Ronaldo, foi o último a fazer uso da Tribuna na Câmara. Ronaldo disse que o repúdio não tem nada haver com os evangélicos, e sim com a autorização do prefeito."Esse documento não existe, esse papel é uma palhaçada."

Segundo Ronaldo, essa autorização pode ter haver com um "ebó" que colocaram na frente da prefeitura, e, segundo ele soube, o prefeito se reuniu com uns pastores e os convocou para fazer uma oração de descarrego e destruir o "ebó" que foi "arriado" lá. Em seguida um pastor pediu autorização para os evangélicos intercederem por São Gonçalo. Ronaldo repetiu inúmeras vezes que o País, o Estado é Laico, não tem religião oficial e o prefeito deu exclusividade aos evangélicos, em um ato que também desrespeita as outras religiões, e principalmente as que o Instituto representa, por se tratar de religiões de matrizes africana, como o Candomblé, que sofre ainda muita perseguição, preconceitos.

Durante sua fala, Ronaldo explicou que autorização pode desencadear interpretações e ações negativas contra essa religiões, principalmente durante suas obrigações.

"Quando a gente for fazer uma oferenda a um orixá, pode vir uma turma de evangélicos de lá para cá e querer quebrar, desfazer como eles fazem nas encruzilhadas, jogam óleo ungido... aí nesse momento nós iremos partir para cima, porque nó não vamos aceitar. Quando tiver um conflito, eles irão dizer - nós temos uma autorização que foi dada pelo prefeito municipal," disse Ronaldo.

Até o fim da sessão nada foi debatido sobre o "repúdio" solicitado. O instituto também acrescentou que irá  tomar providencias junto ao Ministério Público Estadual (MP/BA).

OUÇA A FALA DE RONALDO


Por Sandro Araújo
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Sandro Araújo