residencial Falta de saneamento básico no Brasil é grande ameaça à saúde pública - São Gonçalo Agora

Falta de saneamento básico no Brasil é grande ameaça à saúde pública


Saiba porque a deficiência no tratamento e destinação adequada do esgoto ainda causa milhares de doenças no País, especialmente em crianças 

O Governo admitiu, com 17 anos de antecedência, que não conseguirá cumprir a meta de saneamento básico estipulada para o País. O Plano Nacional de Saneamento Básico visava atender 90% do território com o tratamento e destinação adequada do esgoto até 2033. O mais impressionante dessa afirmação é a constatação de que o problema é crônico e histórico no País. Atualmente, quase metade da população (43%) vive em cidades sem rede de tratamento de esgoto.

O que levou o Governo a assumir a incapacidade de alcançar a meta estipulada quase duas décadas antes é o ritmo lento das obras e a falta de comprometimento das gestões envolvidas. A justificativa do Secretário Nacional do Saneamento – Paulo Ferreira, é que as prefeituras dos pequenos municípios tem dificuldade de administrar o problema, seja por falta de pessoal especializado (técnicos, engenheiros e empreiteiras), ou por desinteresse por parte dos prefeitos. Outro ponto notável é a significativa desigualdade entre as regiões: enquanto na região Norte cerca de 90% dos brasileiros vivem sem o serviço de saneamento básico, no Sudeste essa parcela da população representa só 17%, menor número em todo o País.

A preocupação é proporcional ao tamanho do problema: A falta de saneamento básico e rede de esgoto deixa o País ainda mais exposto à doenças. Desde os problemas mais corriqueiros como diarreia e doenças dermatológicas, ao agravamento de epidemias que já estão preocupando as autoridades de saúde: o descaso com o tratamento da rede de esgoto aumenta as condições para a proliferação do mosquito responsável pela Dengue, Chikungunya e Zika.

Ameaça à saúde pública

A gigantesca parcela da população que não recebe este serviço básico, está perigosamente suscetível a diversas doenças causadas pelas más condições oriundas da falta de tratamento de água e esgoto. A exposição a vírus, bactérias e condições insalubres aumenta a incidência de doenças como:

Febre Tifoide: a infecção se dá pelo contato direto com o portador da doença ou através do consumo de água e alimentos contaminados pelos bacilos eliminados nas fezes e urina do doente. A falta de higiene e condições sanitárias precárias são determinantes para proliferação da Salmonela entérica typhi, bactéria causadora da doença. A princípio apresenta sintomas brandos como febre prolongada, manchas rosadas no corpo, falta de apetite, mal‐estar e dor de cabeça, podendo apresentar distensão e dores abdominais, vômitos e diarreia com sangue. Em casos extremos, a falta do tratamento pode causar hemorragias internas e perfuração no intestino, elevando o risco de óbito.

Cólera: causada pela bactéria vibrio colérico (Vibrio cholerae) é uma doença infectocontagiosa aguda do intestino delgado. Sua contaminação dá‐se principalmente pela ingestão de alimentos contaminados, mal cozidos ou o contato direto com as fezes de pessoas infectadas. A cólera causa intensa diarreia, vômitos, dores abdominais e eventualmente, febre. A perda excessiva de líquidos leva a desidratação severa, podendo também comprometer o estado nutricional do portador. Em casos extremos, onde ocorre o choque hipovolêmico que pode levar a falência dos órgãos e, consequentemente, a morte. A falta de higiene e saneamento é uma das principais fontes de contaminação da doença.

Leptospirose: os principais transmissores da doença são os ratos urbanos, responsáveis por contaminar a água com a bactéria Leptospira, presente na urina desses roedores. A contaminação acontece quando o indivíduo entra em contato com a água contaminada e a bactéria entra na corrente sanguínea através de pequenos ferimentos ou mucosas. A doença causa febre alta, mal estar, mialgias (dores musculares), olhos vermelhos, tosse, manchas avermelhadas no corpo, cansaço, náuseas, diarreia e desidratação severa. A doença também pode provocar o agravamento da saúde através da meningite. Suas complicações podem levar a complicações renais, hemorragias e coma.

Disenteria bacteriana: também conhecida como Shigeloses, dá‐se através do contato com fezes ou alimentos contaminados pela bactéria Shigella. Acomete o intestino provocando diarreia severa muitas vezes acompanhadas de sangue e muco e cólicas abdominais.

Parasitoides: a convivência em ambientes insalubres, sem o saneamento correto e acesso a água potável pode ocasionar a proliferação de parasitas humanos. O contato com água e fezes contaminadas provoca doenças proeminentes de protozoários lombrigas e vermes. Infecções como a Amebíase, Giardíase e Teníase têm em comum a presença de parasitas que adentram o organismo humano, instalam‐se no sistema digestivo e ocasionam uma série de problemas ao hospedeiro. Essas doenças normalmente acometem infecções intestinais, disenterias, esteatorreia e diversos outros sintomas extremamente incômodos ao doente. Além disso, sua incidência pode prejudicar consideravelmente o desenvolvimento do indivíduo, tanto físico quanto intelectual, por comprometer seu estado nutricional.

Agravamento de epidemias: Zika e Dengue

As enfermidades causadas pela falta de saneamento básico podem parecer um problema distante para aqueles que não convivem com essa realidade, mas as consequências da negligência em relação a politicas básicas como essa pode ter efeitos devastadores para toda a sociedade.

A proliferação de agentes causadores de epidemias como o mosquito Aedes Aegypti dá um tom ainda mais preocupante à essa questão. O saneamento básico é fundamental para que a população se sinta envolvida num conjunto de medidas para combate ao mosquito e outras doenças, porém se existe o abandono por parte dos gestores, dificilmente os moradores se sentirão comprometidos com as ações. O abandono de regiões periféricas ou até mesmo cidades inteiras favorece a cultura do acúmulo de lixo além de outras condições favoráveis a incidência de criadouros do mosquito.

A situação no Brasil é tão alarmante que diretora geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margaret Chan, desembarcou no país no último dia 23 para discutir com as autoridades, incluindo a Presidente da República, medidas que podem ser tomadas para frear a epidemia de microcefalia relacionada ao Zika, iniciada em nosso território. Durante seu primeiro mandato na direção da OMS, Chan desenvolveu uma série de medidas de combate à desnutrição, alertando para sua relação com problemas sanitários e condições de higiene precárias em regiões como a Ásia. No relatório desenvolvido pela Organização, destacou‐se a necessidade da adoção de políticas de saneamento e acesso a água potável como forma de garantir a saúde e desenvolvimento da população.

No Brasil, os números demonstram que a população segue sofrendo devido à falta de políticas básicas de atenção à saúde. E o mais preocupante é que a faixa etária mais prejudicada é justamente a mais nova: doenças infectocontagiosas e epidemias como a Zika representam grande risco a população infantil.

Crianças são as mais prejudicadas

O efeito das doenças causadas pela exposição ao esgoto e a água contaminados prejudica sobretudo as crianças na primeira infância, período dos 0 aos 5 anos de idade, fase na qual os fatores externos são determinantes para o seu desenvolvimento físico e intelectual.

As frequentes diarreias e desidratações causadas pela ingestão de alimentos contaminados, água sem tratamento adequado ou até mesmo pequenas infecções intestinais causadas por agentes transmissores podem comprometer seriamente o estado nutricional e, consequentemente, o crescimento da criança.

De acordo com a nutricionista Bruna Benedetti da Nova Nutrii “Doenças intestinais recorrentes e principalmente a contaminação por parasitas pode influenciar na capacidade do organismo da criança em absorver os nutrientes da alimentação. Outras questões podem piorar o quadro, como falta de apetite e falta de acesso a alimentação adequada, resultando em crianças mal nutridas e com crescimento comprometido.”. O resultado dessa triste combinação é uma geração de crianças com saúde debilitada, de menor estatura e baixo aproveitamento escolar.

Enquanto a solução não vem em definitivo, medidas simples podem ajudar na prevenção de doenças: “Lavar muito bem os alimentos, higienizar as mãos, ferver a água e evitar contato com ambientes de risco podem ajudar a minimizar os problemas. Além disso, crianças que apresentarem sintomas como de falta de apetite, vômito e diarreia devem ser acompanhadas por um médico. A utilização de suplementos nutricionais e uma dieta balanceada podem ajudar a recuperar o estado da criança e fortalecer seu sistema imunológico” – aponta Bruna Benedetti.

Apesar dos avanços que o país tem feito nos últimos anos em relação ao combate à miséria e desnutrição, os números apontados pelo Governo quanto à meta do Saneamento Básico vão totalmente na contramão desta preocupação. A sociedade deve seguir atenta e cobrar medidas dos órgãos competentes, afinal como o próprio nome diz, é um direito básico que pode assegurar a saúde da população e vai muito além, é um indicador de qualidade de vida e de condições mínimas de dignidade.

São Gonçalo Agora/Sandro Araújo
Rebeca Oliveira/Agência Carti
Compartilhe no Google+

Sandro Araújo